‘As meninas Morto”, Selva de Almada, discute feminicídios veraz

Depois que me tornei pai de uma menina (melhor dizer: na medida em que me estou a tornar-se pai de uma menina), faz seis anos, eu desenvolvi um horror quase a violência física contra as mulheres. Mesmo depois de ler O Conto da Aia, eu não ter experimentado o terceiro episódio da excelente série baseada no romance de Margaret Atwood. Não pode re-ler A Parte dos Crimes em 2666, de Roberto Bolaño, o chileno narra a dezenas de assassinatos de mulheres ocorridos em Ciudad Juárez, México. Revisitei o horror à leitura das Meninas Mortas, Selva de Almada (Ainda). E eu estava pensando que, se muitos homens desconhecem este horror, esta é precisamente a maneira mais conveniente de continuar-lo, multiplicá-lo, ou criar as condições ideais para se perpetuar. Porque é isso que acontece quando o horror é normalizado – e não só os pais das meninas precisam saber que existe.

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“Hey Joe, eu ouvi falar de você tiro a sua mulher para baixo/ Sim, eu fiz, eu tiro ela/ você sabe que eu pego ela messin’ ‘round cidade/ eu estou indo’ caminho para o sul, onde eu possa ser livre!”, canta Hey Joe, blues tradicional imortalizado por Jimi Hendrix. Eu nunca tinha percebido que a música é sobre um assassinato com a impunidade, porque é uma violência normalizado: Joe mata sua esposa e foge para o México. O feminicídio envolve violência doméstica e familiar, e o menosprezo ou a discriminação à condição de mulher, e está previsto no Código Penal brasileiro desde 2015.

O conceito de crime tem ganhado espaço no debate latino-americano precisamente a partir de denúncias de assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, tematizados por Bolaño: a partir do início da década de 1990, as práticas de violência sexual, tortura, desaparecimentos e assassinatos de mulheres no norte do méxico foram repetidas no contexto de omissão do Estado, e a consequente impunidade para os agressores.

Isto é, os motores de femicídio são exatamente a normalização dos crimes e sua impunidade. E há três crimes impunes, o eixo deste romance de não-ficção Selva Almada, que lembra, na atmosfera e na reconstituição dos fatos, o clássico a Sangue Frio, de Truman Capote. Andrea Dunne foi apunhalada no coração, enquanto ele dormia. Maria Luisa Quevedo foi estuprada, estrangulada e abandonada em um terreno baldio. Sadie Mundín estava ausente por quase um ano, até a sua suposta esqueleto a ser encontrada na beira de um rio. Todas as mulheres de menos de vinte anos. Almada, que não é um jornalista, realizou uma impressionante investigação de campo para compreender como essas mulheres foram assassinadas no quase sempre quente no interior da argentina.

Almada lembra que teve a sua atenção despertada para esse tipo de crime como um adolescente, enquanto observava o pai para assar um churrasco e ouvi no rádio o relato da morte de Andrea Dunne. Ele entendeu que o seu mundo não era mais seguro: uma menina poderia ser morto no conforto de casa, quase sempre com as mãos bem conhecidas (marido, pai, namorado, parente ou vizinho). Com a prosa clara, direta e sincera reconhecido no belo romance O Vento Que Sopra (Cosac Naify), Almada investiga as histórias dessas mulheres esquecidas no ritmo do romance, a polícia, através do contato com a família, com pesquisas em livros e revistas, da reflexão e da imaginação – se utilizar até mesmo uma certa senhora que lê as cartas de tarô das vidas passadas de mulheres mortas. E é esta senhora que oferece uma chave para simbolizar o livro: La Huesera, a Mulher dos Ossos.

“É um velho muito velho que vive em um determinado lugar escondido da alma. Um velho chucra que gargalha com as galinhas, ela canta como as aves e emite outros sons mais animal do que humano. Sua tarefa consiste em coletar ossos. Ela recolhe e conserva tudo o que periga se perder. O seu barraco, é cheio de ossos de todos os tipos de animais. Mas os seus favoritos são os ossos de lobos. Para encontrar um, ela é capaz de andar por quilômetros, subir montanhas, atravessar rios, para queimar a sola dos seus pés nas areias do deserto. De volta para o seu barraco com a braçada de ossos, ela monta o esqueleto. Quando La Huesera coloca a última peça no lugar, e a figura do lobo, que brilha diante de seus olhos, ela senta junto ao fogo e começa a pensar que música ele vai cantar. Quando ele decide, levanta os braços sobre o esqueleto e começa a cantar. Como ele canta, os ossos serão forro de carne; e a carne, o couro, o couro e de peles. Ela continua a cantar, e a criatura ganha vida, começa a respirar, a sua cauda se estica, abre os olhos, dá um salto e corre para fora da cabana. Em algum momento da sua corrida vertiginosa, seja pela velocidade, ou porque ele mergulha nas águas do rio para atravessar, é porque a luz do luar pega-lo completo no flanco, o lobo se transforma em uma mulher que corre livre na direção do horizonte, a rir às gargalhadas. Talvez esta é a sua missão: recolher os ossos das meninas, armá-los, dar-lhes voz e, em seguida, deixá-los correr livremente para onde tem que ir.”

Nascido em uma pequena cidade na província de Entrerríos, Almada trouxe novidade para a literatura da argentina para buscar histórias muito longe da cosmopolita de Buenos Aires, os seus personagens são pequenos e pobres, vozes, cujas tragédias foram desossadas. Sua prosa é contaminado pelo calor mormacento estas cidades sufocadas, onde há pouca perspectiva: trabalho mecânico, o onipresente igreja (católica ou pentecostal), as tradições são sem sentido no século 21, melodramas dos programas sensacionalistas na TV, o sonho de escapar para longe.

Tirando o sotaque da argentina, é fácil reconhecer o Brasil profundo em seus livros. O horror é semelhante ao nosso – 12 mulheres são assassinadas por dia no Brasil; na Argentina, a média é de um assassinato a cada 29 horas.

E o horror precisa ser olhado, várias vezes, de modo que nunca mais se repita. Mas nós também precisamos olhar para as meninas o que viu que o terror de perto, e que não tiveram tempo para fugir. “Eu acho que o que nós precisamos é reconstruir a forma como o mundo olhava para eles. Se pudéssemos saber como eles foram vistos, assim como as lembranças, deixe-nos saber qual foi o aspecto que tinham no mundo, você entende?”, pede a Selva de Almada. O prodígio de Meninas Mortos não reside somente constituem um inventário dos horrores, mas, principalmente, como uma máquina de memórias, trazendo as histórias dessas mulheres de volta à vida.

*É escritor e jornalista, autor do romance ‘Cabeludo’ (publicado pela Escola), entre outros.

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