Imortal da ABL, Antonio Carlos Secchin lança dois livros

O maior inimigo de uma boa literatura é a palavra de ordem. Não há verso ou prosa, para melhor aparente, que resistir o poder corrosivo de um lugar-comum. Para combater a praga de boa aparência que oculta a falta de originalidade é dever do crítico e professor de literatura. E só muito de vigilância evita o acadêmico de deslizamento em mera semelhança. Poeta, crítico e professor, Antonio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, é um dos cruzados contra o lugar comum, como evidenciado pelos seus recentes lançamentos. As rotas da Poesia Brasileira reúne vislumbres de sua militância crítica e já está em nossas livrarias Desdizer, coleção de poemas, que acaba de ser lançada em Portugal.

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O que dá organicidade para os dois volumes não é novidade, mas a originalidade. As análises do primeiro são o resultado do trabalho do historiador, ao invés do que o crítico. Nele, o autor reúne textos que já são, ou nunca chegou a ser publicada, em um esforço que, mais do que opinião, é a investigação das formas originais de que a lírica brasileira – do romantismo ao pós-modernismo – foi concebida para escapar da armadilha do facilitário, à disposição do escritor incautos. Esse vazamento de repetição egoísta levou nossa poética uma espécie de Olympus longe do mercado, que muitos em uma pressa para misturar com a torre de marfim. Secchin defende que se escondeu recitais da escola nos laboratórios do vernáculo.

É o caso de Bernardo Guimarães, um romancista de A Escrava Isaura, bem sucedidas adaptações do recente novela, que tem lembrado a “vertente erótica-demoníaco” na visão do stunt ensaísta e criador. Em opiniões recolhidas a partir de poetas como Alphonsus de Guimarães é analisado em sua fase menos notório, antes da militância católica. Neste livro Secchin rostos mitos, como a ausência do verso livre antes do modernismo, trazendo à tona a obra de Mário Pederneiras. E critica a Academia sueca por não ter concedido a Ferreira Gullar o Prêmio Nobel de Literatura. A dúvida, quem há-de?

De Desdizer o título diz tudo. A obra contém a produção poética do acadêmico até o momento. Ele Secchin escapa versos com pompa, declarações, trocadilhos e outras figuras de gramática como o diabo foge da Crucificado. Este canto o inesperado, o que faz com que a arte poética, mais sementes de frutas, e menos ainda de descansar em certo e conhecido, esgueirar-se através de todas as páginas e espanta traças e poeira, como os adversários do novo, que celebra a descoberta, não a consagração, como o fizeram os escritores citados no outro livro.

Na passagem do ano de 2002 para 2003, por exemplo, o poeta não quer torres do calendário para abrir, mas deixa claro que ele se propõe a buscar, em seus recantos vontade de seguir em frente, não para renascer. Exemplo: “Seu corpo é muito maduro/ mantém o tempo que virá depois./ Nele eu revisão do lado errado do futuro, / o recém-amigo de 2002”.

A poesia de desdita não é triste como o som para ser um agente do comprador e de despedida. Na batalha contra o conformismo das formas rebuscadas, o autor se arma um humor militante, quase feroz, quando, algumas páginas adiante, retoma o tema a aguardar na lista de tarefas virada do ano em que se tornar o novo ano um monte de gente. O mordaz ferocidade torna aparente som de um alarme de taças de espumante para o título do poema Feliz Ano Novo uma lasca de cristal sem dó. Profetiza: “você vai Encontrar o amor de sua vida,/ sem vida, em um caixão de partida”. Quando você chegar ao último versículo, o leitor atento irá hesitar entre o medo e o riso: “Venha sorrindo para o Céu sonhou./ Mas é domingo. O portão está fechado”.

A impressão de que alguns desavisados podem desfrutar da poesia satírica de Secchin, como em sua crítica radical, é que ele está atrás da porta, abafando o riso com a mão por sua própria invenção. Sendo o autor, de ofício, um professor de Literatura, pode ter encontrado inspiração na ironia aguda, mas sem amargura, um dos mestres como o maior de todos, de Machado de Assis, e um senso de ritmo que Castro Alves aprendeu com Bocage. Ou até mesmo em autores contemporâneos de além-mar, como no caso do iconoclasta, Cesário Verde, polígrafo Fernando Pessoa, ou a profundidade e a necessidade de Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas não se engane: sua escrita é extremamente pessoal e, também por isso, inimitável.

Secchin sabe ser irreverente, quase uma blasfêmia, neste Soneto Pio, ele desliza para baixo de uma irresistível pornografia profano para tratar da tradição religiosa com palavras de duplo sentido e rimas oculto: “E o sacerdote toma a vara, para afugentar o exu. / ‘Que no meu saco um bom ácaro mete?’, / voz de um iniciante tocar o sino”. Endereçamento o mais sagrado de formas, a de sonetos parnasianos, o poeta põe à prova a sua decisão de buscar o risco como objetivo, sem a qual a poesia não é percebido em sua forma mais ampla.

O mestre-escola exala conhecimento de teoria literária ao longo de todo o livro, mas este leitor deslumbrado e eu não poderia deixar de expressar sua preferência por uma espécie de manifesto da instabilidade do balanço das ondas do mar e dos limites da grade que guarda o vôo dos pássaros, um poema sem título que justifica a sua veneração do papa do ritual verbal. “A estação de ar no vácuo. / A forma de preenchimento / sinal precário? / Palavra / nave da navalha / borda da gaiola, o / lembre-se-me / o outro lado do neutro / não estiver marcada, / o além / o outro lado”. Nestes 12 linhas retas e curvas em preto sobre o papel, o poeta confronta o efêmero, a vela no fio da navalha, uma espécie de Ulisses vai a Ítaca em busca de Madame Satã. No caminho, ele pára em uma porta para soltar o assum preto, cego dos olhos, para voar, mesmo em preto vastidão, libertado da prisão da volta de Humberto Teixeira, no tom de Luiz Gonzaga. O músico rebelde não dar bola para as armas e os brasões do caolho Camões, como se ele sempre procurar imagens por trás do reflexo do espelho em a terceira margem do rio, a história de um prosador que ele conhece bem: João Guimarães Rosa. Aventura infinita, a saga, o amaldiçoado, o poeta na poesia de Gregório de Matos recorte método de João Cabral.

*José Nêumanne Pinto é jornalista, poeta, escritor e autor de “Barcelona, Borborema’

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